quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Sorte

Me olho no espelho, a minha pele está vermelha de sol, mas só no colo, logo abaixo do pescoço, do lado esquerdo. Subestimei o sol do verão canadense. É que nem parece que é nesse país mais conhecido por seus dias gelados que eu estou... Passei o dia na beira da piscina, refestelada, curtindo meu dolce far niente.

O livro que estou lendo me dá sono. Durmo instantaneamente... Não sei o que pensar.

Eu estava com muitas saudades. Nem sabia que voce era tão importante. Tive mil idéias nessas duas últimas semanas de viagens, tentei guardá-las para não esquecê-las e poder então te contar... Mas... acho que elas já se foram. Ou não. Como diria Caetano.

Eu acho que a minha vida vai mudar daqui pra frente. Tô comecando a aceitar que o que eu quero é totalmente possivel.

Começo a ver que o que eu tenho mesmo nessa vida é sorte.

No ano passado, na minha última sexta-feira de trabalho antes das férias, aconteceram os primeiros ataques do PCC nas ruas de São Paulo. Trabalhei como uma condenada. Mas o pior ainda estava por vir. E eu? Bem, eu me preparava pra ir pra Europa depois de um jejum de 7 anos sem ir ao exterior. Mas, pensa bem, tem gente que nem nunca foi!!!

Este ano, minhas férias começaram no dia 16 de julho. No dia 17 houve o pior acidente aéreo da história do Brasil. A mais ou menos 6 quilômetros da minha casa. E à mesma distância do meu trabalho. E eu, onde estava? Na fazenda, visitando minha única avó viva, que hoje tem 87 anos. Enquanto o avião se espatifava e explodia no meio da cidade, eu estava perdida numa estrada de terra escura, no carro da minha irmã, sozinha, procurando pelo meu pai. Hoje posso dizer que aquilo era o melhor dos mundos, considerando o que acontecia nessa mesma hora na minha querida São Paulo.

Viajei pra Nova York assim mesmo, deixando a tristeza pra trás. Mas não foi fácil estar num avião. Viajar na janela, vendo a noite que corre solta e as asas dessa fascinante invenção do homem... O barulho contínuo não me deixava esquecer onde eu estava. Não, não se tratava de uma estrada de vez em quando esburacada. Eu estava era voando entre as nuvens. E a sensação de que aquela máquina possante podia não parar me deixava com um nó na garganta. Mas o homem é mesmo um gênio. Aquele pássaro gigante pousou docemente na Big Apple.

Nova York me recebeu chorando. Fria, chuvosa e triste.

Mal pude acreditar! Onde estava o sol que as férias me prometiam?

Mesmo cansada, a antena estava ligada, a mil por hora. Vi que todo mundo me compreendia e os que não me compreendiam tinha paciência pra pelo menos tentar. No ônibus até Roosevelt Island, passando por todo o Queens, não vi um branco sequer, um verdadeiro e puro americano. Nesses 13 anos em que não vinha a NY, as coisas mudaram. A imigração mudou a cara e o gosto da cidade. Fui muito bem tratada em NY. E as cores das pessoas foram escurecendo. Elas foram ficando mais parecidas comigo.

A chuva persistente me acompanhou durante todo o primeiro dia. Nao me deixei vencer pelo cansaço e saí a procura das coisas que caracterizam a cidade. Andei sob a chuva forte, um guarda-chuva emprestado que me salvou a vida me acompanhou.

Mas estive em desespero por alguns minutos. O que eu estava fazendo ali, sozinha? Por que enquanto eu estou de férias em NY tem tanta gente sofrendo a perda de entes queridos numa tragédia? Por que o mundo ainda está em guerra? Por que NY é visada pelos terroristas? Por que eu AINDA nao estou feliz?

No dia seguinte, veio o sol. E com ele a minha esperança num mundo muito melhor.

Mas, pasmem, enlouqueci. NY me deu todos os ímpetos consumistas que uma mulher pode ter nessa vida! Pirei, torrei dólares e agora tenho mil contas pra pagar.

Ainda não estou totalmente feliz, mas, o mais legal é que não me sinto nem um pouco perdida. Mesmo tendo estado 13 anos longe de NY, mesmo tendo estado 9 anos longe do Québec!

Eu sou mesmo uma garota de sorte!

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