quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Ah, esses aquarianos!...

Que espécie de seres humanos somos nós que não temos paciência com quem mais amamos? E aí, na iminência de perder essa pessoa, nos transformamos em chaga viva...

Por que na hora de dizer o quanto a gente gosta, o quanto essa pessoa vai nos fazer falta, a voz não sai, a garganta dá um nó, o estômago trava...

Cambada de covardes, somos nós... Temos dificuldade de falar o que é doce, mas o que é fel sai com facilidade...

Meu tio querido está doente. E eu choro todo dia sozinha com medo de perdê-lo...

Ele atendeu ao telefone. Não se surpreendeu ao ouvir a minha voz, apesar de ser raro eu ligar.
É que sou essa espécie de ser humano que só enxerga o próprio umbigo, que corre muito contra o tempo e que quando se dá conta, está correndo atrás do próprio rabo.

Mas ele não me julgou, pelo contrário. Me ouviu.

Dessa vez, ele não falou de política, não meteu o pau no PT, não falou da esquerda facista para meu desespero. E mesmo que falasse, dessa vez eu teria mais paciência, talvez nem mudasse de assunto...

Uma vez ele começou a lamentar por tudo o que acontecia em nosso país. Falava da política e dos políticos, claro. E disse: "Se um dia eu fosse o presidente da república..." Não dei ouvidos ao resto da frase... E ele também ficou distante. Quando alguém perguntou alguma coisa de um outro assunto completamente diferente, ele respondeu: "Não sei, não estava prestando atenção. Estava pensando em tudo o que eu faria se eu fosse o presidente do Brasil..."

É assim o meu tio. Um verdadeiro aquariano, que vive mais no mundo das idéias do que no real. Um apaixonado pela tecnologia e pela modernidade.

E hoje tudo o que eu consegui dizer foi: "É tio Catide, não é mole, não..." E parei aí pra não chorar ao telefone, na frente dele...

Ele me agradeceu a atenção. Falou igualzinho falava a minha avó, já falecida... Minha querida avozinha... O meu tio é tão frágil quanto ela. Sempre foi. Ela também era dessas aquarianas especiais...

Acho que os aquarianos não são muito resistentes a doenças...

Pelo menos com ela eu tive paciência. Por uma dessas não-explicações astrais, eu respeitava muito o jeito dela. E disso eu não me arrependo.

O meu tio é especial pra mim há muito tempo.

Ele estava na festa em que minha mãe conheceu meu pai. Era penetra.

Quando ele se casou, eu era criança, mas fui convidada. Achei que estava em San Francisco na época da Contra Cultura. Tinha meninas e a menina-noiva de vestidos amarelos, de pontas, lastéx e flores no cabelo. Coroa de flores nos cabelos soltos, naturais.

Quando a gente ia pro sítio e eu era pequena, ele me rodava na rede de balançar. A gente brincava até eu bater a cabeça, chorar e ficar com um galo enorme na testa. Minha mãe é que adorava essas brincadeiras!

Quando fiz cursinho pra entrar na faculdade, foi ele que pagou a minha inscrição.

E depois, era ele que durante muitos anos ficava sentado na ponta da mesa o domingo todo. Conversando, comendo, fumando, rindo...

E no Natal, ele continua lá sentado na ponta da mesa. No lugar que é dele.

As mesas mudaram, as casas mudaram. Ele, não.

Foi ele também que me ensinou o que é o Espíritismo.

E ele foi a primeira pessoa a me dizer que eu não tinha motivos para enxergar a única luz apagada numa enorme árvore de Natal toda iluminada. Na época, não entendi...

São essas coisas singelas que construíram esse amor que eu sinto por ele e que eu nem sabia que era tão forte!

Agora é confiar Nele, e no mundo invisível que nos cerca, nas boas companhias que a gente sabe que estão aqui, do nosso lado!

Tá faltando palavra pequena nesse mundo: FÉ.

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