Finalmente!
Depois de um turbilhão chamado semana pós-plantão, estou exatamente onde eu queria estar, fazendo exatamente o que eu queria fazer.
Demorou pra eu me encontrar com quem eu mais queria -- eu mesma. Ego trip total!
Meu décimo segundo dia de trabalho sem folga começou com um pesadelo. Às 5h30 da manhã já não era mais possível dormir. Queria ter dinheiro suficiente pra sustentar a minha mãe pelo resto da vida dela...
Fui vestir uma das minhas calcinhas preferidas. Estava furada, a ferro, em dois lugares diferentes. Fiquei estática, olhando pr´aqueles dois furinhos e pr´aquela marca da ponta do ferro. Fiquei frustrada. Devo ter mais de 20 calcinhas. Quem sabe mais de 30? Não contei. Mas não gostei de ver que uma calcinha minha tinha sido massacrada, assassinada, ferida e a sua algoz foi incapaz de me deixar um bilhetinho que fosse. Não, preferiu guardar a calcinha, dobradinha, limpinha e passadinha como as outras no saco de calcinhas e esperar por esse meu momento solitário de descoberta e frustração.
Coloquei outra, que eu também gosto muito. Ganhei de presente de uma colega de trabalho. Adorei.
O episódio da calcinha me remeteu imediatamente pra minha carreira e a crise profissional que só eu vejo que estou passando. Creditei ao meu novo horário de trabalho e ao fato de que não me encontro mais com a minha faxineira, que vem em casa uma vez por semana, o incidente com a calcinha.
Não consigo pedir que ela faça coisas, não consigo me lembrar do que quero pedir. Quando deixo um bilhete, ela entende metade dele. 25% por causa da minha péssima letra (um dia ela já foi bonitinha, mas o computador a transformou num garrancho digno de médico!), 25% por causa do analfabetismo funcional dela. Quando ela me deixa um bilhete, entendo pouco -- pelos mesmos motivos...
Quando peço pra ela me ligar, estou tão concentrada no trabalho que não me lembro das coisas que quero pedir, das orientações que quero passar. Fora que ela me pede desculpas a cada frase dita - por mim ou por ela. Ela é ótima de limpeza, de total confiança. Por isso fico com ela.
Mas hoje, sem querer, achei a solução para o meu problema com ela.
Vou pagar um curso de doméstica para ela, nas minhas férias. Agora só falta ela aceitar!
Tudo para ter alguém que administre os 38 metros quadrados de vida privada que eu tenho. Parece pouco, mas não é.
Os 38 metros quadrados são meus. Quando olho assim em volta, vejo as coisas que eu comprei, adquiri, fiz pra mim mesma. Tudo pra facilitar a minha própria vida. E me assusto com o volume de coisas que apenas UM ser humano pode angariar.
Nos meus 38 metros quadrados cabem um banheiro que tem box de blindex, uns 6 ou 7 shampoos diferentes e 1 condicionador. Tem um chuveiro chinfrim, mas com bastante água e bem quentinha. Tem tampa de privada que combina com a cor da louça. Tem um mega espelho e um armário bonitinho. Dentro desse armário tem muita coisa, muita maquiagem, cremes, secadores. Tudo no plural.
Tem também um quarto, digamos. Onde há uma cama queen size, com colchão de 38 cm de altura. Só pra mim. Só pros meus 1,60 metro e 50 quilos. E um super armário branco que mandei fazer sob medida. São 3 portas enormes. E lá dentro? Vixxxiii... Como tem coisa! Sapatos, bolsas, sandálias, botas, casacos, pijamas, calças, saias, bermudas, blusas, camisas, vestidos, lingerie, meias, brincos, anéis, pulseiras, roupas de cama, toalhas, documentos, livros... Tudo, só pra mim. Tem também meu computador, meu Ipod e minha câmera digital.
Na sala tem TV, DVD e vídeo. Tem aparelho de som. Dois. Tem livros, CDs e DVDs. Uma mesa de jantar. Na varanda tem a minha cadeira de madeira, coisa bem mineira.
A cozinha é completa, tem geladeira, fogão, depurador, armários bonitos feitos sob medida. Dentro deles? Tudo o que você puder imaginar! Incluindo taças, copos, louça, tudo do bom e do melhor, como dizia a minha falecida vovó. Só tá faltando um bom jogo de panelas (as minhas estão horríveis!) e uma panela de pressão e uma batedeira. Na geladeira, sempre tem alguma coisa pra jogar fora. Isso porque nos supermercados quase não se vendem coisas para UM ser humano só. E sempre tem belisquetes gostosos e bebidinhas geladas. Tudo para o MEU prazer.
E na minha área de serviço tem um tanque, uma máquina de lavar, um varal, um armário cheio de material de limpeza!
UFA! Acredite se quiser, tudo isso em 38 metros quadrados!
Quando me mudei pra cá, fiz a limpa. Doei coisas, tentei reformular minha maneira de vida. De 6 em 6 meses tento doar roupas, sapatos, essas coisas. Mas o ímpeto de consumir pra ME satisfazer voa mais rápido!
Bem, não bastasse tudo isso, agora quero alguém que administre esse terreno. Porque quero chegar em casa e não ter surpresas, furos...
Já que tenho que chegar e organizar isso TUDO, que pelo menos eu tenha alguém pra me ajudar!!!
Sou egoísta mesmo. É tudo o meu umbigo. It´s all about ME!
Mas hoje sinto que pertenço a um mundo. Numa matéria que tô fazendo tem uma médica. Da minha idade, assim. Solteira. Mulher batalhadora. Tem hora pra sair, mas não tem hora pra chegar em casa. Ela tem um apartamento muito maior do que o meu. E muito mais organizado também. Tem dois cachorros. E uma empregada doméstica. Dessas de confiança. Dessas pra quem você entrega a vida. E essa médica entrega a vida dela à empregada.
Minha amiga, uma diretora financeira poderosa, também da minha idade, solteira também tem uma empregada. E o apartamento dela parece um show room, de tão arrumado (palavras dela).
Minha outra amiga, colega de trabalho que vai se casar no dia 12 de abril do ano que vem, tem um apartamento um pouco maior do que o meu. O dela tem dois quartos. Mas ela vai se mudar pra casa do noivo no mês que vem. A casa dela é um brinco e ela só vai se mudar pra casa do noivo quando tudo lá estiver um brinco também.
É assim esse grupo de mulheres ao qual eu pertenço. Fazemos de tudo para facilitar as nossas vidas, para arrumar tudo, para termos o controle sobre tudo, para termos mais qualidade de vida.
E é por isso que estamos sozinhas (toda regra tem exeções, claro!). É porque queremos explicação e eles só querem fumar um beck, pegar na sua bunda e dirigir tomando uma cerveja da sua casa pra dele.
Bem, hoje meu apartamento tá completamente zoneado. Isso quer dizer que eu, sozinha, não consigo trabalhar, fazer unha, depilar, ir à terapia, ir ao centro espírita, sair, tomar um choppinho numa happy hour, ir a um vernissage, pegar trânsito, ver a novela, jantar fora, beijar na boca, dormir, ir ao ginecologista, cozinhar pra amiga, lavar a louça depois, ligar pra irmã e pra mãe, renovar o seguro do carro, pagar as contas, ir ao supermercado, visitar uma amiga e ainda arrumar tudo.
Eu avisei, essa é uma EGO TRIP!
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